sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os Amigos e os Amigalhaços

Esta é uma das crónicas que Miguel Esteves Cardoso escreveu para o Expresso, e que veio posteriormente a ser editada em livro conjuntamente com muitas outras. Por aquilo que aborda, a amizade e a falsa amizade, achei-a merecedora de ser transcrita, sem cortes ou alterações, aqui fica.
“Não se pode ter muitos amigos. Mesmo que se queira, mesmo que se conheçam pessoas de quem apetece ser amiga, não se pode ter muitos amigos. Ou melhor, nunca se pode ser bom amigo de muitas pessoas. Ou o melhor amigo.
A preocupação da alma e a ocupação do espaço, o tempo que se pode passar e a atenção que se pode dar, todas estas são finitas e têm de ser partilhadas. Não chegam para mais de um, dois, três, quatro, cinco amigos. É preciso saber partilhar o que temos com eles e não se pode dividir uma coisa já de si pequena (nós) por muitas pessoas.
Os amigos, como acontece com os amantes, também têm de ser escolhidos. Pode custar-nos não ter tempo nem vida para se ser amigo de alguém de quem se gosta, mas esse é um dos custos da amizade. O que é bom sai caro. A tendência automática é para ter um máximo de amigos ou mesmo ser amigo de toda a gente. Trata-se de uma espécie de promiscuidade, para não dizer a pior. Não se pode ser amigo de todas as pessoas de que se gosta. Às vezes, para se ser amigo de alguém, chega ser preciso ser-se inimigo de quem se gosta.
Em Portugal, a amizade leva-se a sério e pratica-se bem. É uma coisas à qual se dedica tempo, nervosismo, exaltação, “dinheiro, para os materialistas”. A amizade é vista, e é verdade, como o único sentimento indispensável. No entanto, existe uma mentalidade Speedy González, toda «Hey gringo, my friend», que vê em cada ser humano um “amigo”.
Todos conhecemos o género – é o «gajo porreiro», que se «dá bem com toda a gente». É o «amigalhaço». E tem naturalmente, dezenas de amigos e de amigas, centenas de amiguinhos, camaradas, compinchas, cúmplices, correligionários, colegas e outras coisas começadas por c.
Os amigalhaços são mais detestáveis que os piores inimigos. Os nossos inimigos, ao menos não nos traem. Odeiam-nos lealmente. Mas um amigalhaço, que é amigo de muitos pares de inimigos e passa o tempo a tentar conciliar posições e personalidades irreconciliáveis, é sempre um traidor. Para mais, pífio e arrependido. Para se ser uma bom amigo, têm de herdar-se, de coração inteiro, os amigos e os inimigos da outra pessoa.
É fácil estar sempre do lado de quem se julga ter razão. O que distingue um amigo verdadeiro é ser capaz de estar ao nosso lado quando nós não temos razão.
O amigalhaço, em contrapartida, é o modelo mais mole e vira-casacas da moderação. Diz: «Eu sou muito amigo dele, mas tenho de reconhecer que ele é um sacana». Como se pode ser amigo se um sacana? Os amigos são, por definição, as melhores pessoas do mundo, as mais interessantes e as mais geniais. Os amigos não podem ser maus.
A lealdade é a qualidade mais importante de uma amizade. É claro que é difícil ser inteiramente leal, mas tem de se ser. É conveniente deixar que os outros digam mal dos nossos amigos ou defendê-los sem convicção. Fica bem, dá um ar de pluralismo e equanimidade, é sociável. Podemos até pensar para nós próprios: “Não faz mal – isto é só conversa. O que interessa é o que sentimos”.
É verdade que interessa o que sentimos, mas, como já o sentimos, passa a interessar mais o que fazemos. Ser amigo não é sentirmo-nos amigos – é comportarmo-nos como amigos. Que me interessa que gostem de mim e me façam mal? Interessa-me tão pouco como aqueles que me façam bem sem gostarem de mim. Ter um sentimento também cria a obrigação de respeita-lo.
Um amizade escondida, que não se orgulhe em ser anunciada, é uma vergonha no verdadeiro sentido da vergonha.
Para se ser amigo de alguém, tem de se passar por intolerante e por faccioso. E que mal tem isso? Quero eu dizer: que mal tem ser mesmo um amigo intolerante e faccioso? Os amigos confiam em nós e, quando se começa a tolerar que outros digam mal deles, só para ser «simpático», essa nossa indiferença fere mais do que as piores palavras de um inimigo. Quando se é amigo de alguém, também se está a dizer «Toma – eis este poder sobre mim». Quanto maior for o poder de fazer alguém feliz, maior também é o poder de magoar. Quando alguém consente que se diga mal de um amigo, esse consentimento é uma cobardia que já começa a ser traição.
Tudo isto deve chocar imenso a mentalidade amigalhaça dos nossos dias. A promiscuidade leva a que se seja amigo da pessoa com quem se calha estar, leva a prezar a presença fortuita de terceiros acima da saudade que cria a ausência de amigos, verdadeiros. E leva a usar o conjunto dos amigos como uma espécie de parque de recrutamento; onde se recorre cada vez que é preciso uma pândega qualquer. Tem-se vergonha de ser leal. Quando nos dizem “Ouve lá – o teu amigo há-de ter defeitos”, temos vergonha de responder como nos apetece no coração, dizendo “Pode ser que tenha, mas não me interessa saber”.
Querer estar bem com todos é, quando a mim, mais odioso que ter ódio a toda a humanidade.
O amigalhaço é aquele que acaba por ser inimigo de todos, na maneira como se comporta, para ser amigo só de si mesmo, no resultado desse comportamento.
A amizade só faz sentido quando traduz claramente uma escolha: “Eu escolhi ser amigo dele – não escolhi ser amigo teu”.
Ser amigo é uma prática. Gostar é apenas uma sensação. Posso dizer, com verdade, «Gosto muito de ti, mas não posso ser teu amigo». Não há tempo. Não há necessidade. Não há, de momento, mais espaço no coração.
Não se pode ter muitos amigos e mesmo os poucos amigos que se têm não se podem ser tantos como nos apetecia. Para não passar mal, aprende-se a economia da amizade, ciência um bocado triste e um bocado simples que consiste em ampliar os gestos e os momentos de comunidade, para compensar os grandes desertos de silêncio e de separação que são os normais. Como por exemplo? Como, por exemplo, abrir mesmo os braços e dar mesmo um abraço. Dizer mesmo na cara de alguém «Tu és um grande amigo» e ser mesmo verdade. Acho que não é de aproveitar todos os momentos como se fossem únicos, porque isso seria uma forma de paixão, mas antes estarmos com os amigos, nos poucos momentos que se têm, como se nunca nos tivéssemos separado. A amizade é uma condição que nunca pode ser excepcional. Tem de ser habitual e eterna e previsível.
E a economia dela nota-se mais quando reparamos que, sempre que não estamos com os nossos amigos, estamos sempre a falar deles. É bom dizer bem de um amigo, sem que ele venha a saber que dissemos. E ter a certeza que ele faz o mesmo, pensando que nós não sabemos.
A amizade vale mais que a razão, o senso comum, o espírito crítico e tudo mais que tantas vezes justifica a conversação, o convívio e a traição. A amizade tem de ser como ter uma coisa à parte, onde a razão não conta. Ter um amigo tem de ser como ter uma certeza. Num mundo onde certezas, como é óbvio, não há.
Para os amigalhaços, que estão para a «amizade livre» como os hippies para o «amor livre», um amigo não é mais que um ponto útil numa rede de relações. É um «contacto». É um capital.
Ser amigo sem esforço, sem sacrifício, é ser amigo sem amizade.
Gostar das pessoas é fácil.
Ser amigo delas não é.
Mas as coisas que valem a pena não podem deixar de ter a pena que valem.
E pena não se poder ser amigo de toda a gente, mas um só amigo vale mais do que toda a gente.
Porquê? Sei lá. Mas vale!!!"
Miguel Esteves Cardoso