domingo, 31 de julho de 2011

Notas soltas de Manuel Castells

[Notas soltas sobre intervenção de Manuel Castells, 15 de Abril, Univ. México, "Comunicação e Poder".

Retirado de:  http://noeconomicrecoverywithoutcities.blogs.sapo.pt/57568.html
Castells dixit

Sobre o poder

"Quem está no poder tem a capacidade de organizar as forças directoras em torno das suas ideias. Onde há poder, há sempre contra-poder! Onde há dominação, há resistência (dinâmica social). As instituições da sociedade são uma mescla dessas relações (compromissos e negociações entre actores) e assim determinam as nossas vidas".
"A informação e comunicação foram sempre fonte de poder e contra-poder, de domínio e de mudança. O controlo da comunicação e informação é um espaço essencial quando se formam relações de poder".
"Os processos de construção mental desenvolvem-se à volta das emoções (que determinam nossos comportamentos) ".
"As redes de construção poder (complexas e multidimensionais) condicionam os outros poderes (regulando-os ou não); usam a capacidade de levar o sistema para onde os interesses dominantes querem".

Sobre comunicação

"Os meios de comunicação são o espaço onde se forma o poder".
"Mais do que ser actor do poder, é importante definir as regras onde se cria o poder".
"Os diferentes papeis do media: os jornais organizam e estruturam o conteúdo; a TV simplifica a mensagem; e a rádio organiza o diálogo personalizado".
"Toda a política é mediática; toda a mensagem que não existe em torno da comunicação, simplesmente não existe politicamente; a conversação intelectual, pessoal ou política, que não é socializada não tem poder".
"O objectivo central da comunicação é ganhar audiência (negócio, influência política, melhores condições, …), mesmo que seja em nichos específicos relativamente pequenos".
"As populações não lêem à procura de informação, mas procuram antes a confirmação da sua opinião (por isso tendem a escolher as opiniões com que se identificam)".
"As mensagens mediáticas são as mais simples possíveis - uma pessoa, um rosto humano (a principal mensagem); os programas não interessam; a confiança não se gera pelo programa, os titulares ou os partidos; dirige-se a algo, a alguém em concreto que inspira a confiança; a confiança é uma espécie de cheque em branco; como se sabe que não se pode exercer qualquer controlo até às próximas eleições, escolhem-se os menos maus"
"Neste quadro, a forma de luta política mais eficaz é a destruição da pessoa (‘política de escândalos’) criando, manipulando ou filtrando algo que destrua o principal valor da pessoa: a credibilidade/confiança que gera"
"Existe uma ideia que os políticos são todos iguais (corrupção, mentiras); A corrupção e os escândalos geram uma crise legitimidade (perda de confiança no sistema político); 70% das pessoas dizem que não estão governados pelos legítimos governantes; o impacto que isto gera é a crise do sistema político, agravada por uma crise económica simultânea"
"A difusão da internet criou um novo contexto de informação que mudou tudo; em 1996 40 milhões, em 2011 cerca de 2 mil milhões de utentes; o número de n.ºs de telemóvel em 1991 era de 16 milhões, hoje são 5 mil milhões"
"Assiste-se a uma des-intermediação dos meios de comunicação de massas, que deixaram de controlar a comunicação".
"Apareceu uma auto-comunicação de massas – onde cada procura informação, gera mensagens, que difunde nas suas redes; a autonomia comunicativa tem uma enorme influência nos movimentos sociais".

Sobre movimentos sociais

"Os movimentos sociais são os que tentam mudar os valores da sociedade (‘quadros mentais’), não os que tentam mudar o poder político; podem fazê-lo, mas só num segundo momento"
"As mudanças mais importantes são as de mentalidades; a comunicação pode ser importante para essa mudança".
"Os movimentos sociais que questionam o poder e a estrutura do Estado encontram na internet e nas comunicações móveis o seu espaço, para a auto-organização, criando redes de solidariedade e de debate, sem relação com os partidos tradicionais".
"Os movimentos sociais partem de causas profundas, relacionadas com os valores da sociedade; utilizam a auto-comunicação, baseada em redes relacionais de confiança (redes de contactos telemóvel ou email), que são mensagens de confiança (redes de pequenos mundos)".
"Os graus de liberdade do contra-poder aumentaram exponencialmente".
"A utopia libertária não depende da internet, ela só a amplifica".
"Contra o que os media dizem, a sociabilidade dentro e fora da rede é cumulativa; quanto maior a sociabilidade pessoal, maior a sociabilidade internet; e o inverso também é verdade".
"Os jovens não lêem periódicos em papel, mas lêem-nos na internet, seleccionando os temas que lhes interessam; os jovens estão mais informados do que se diz".

Mais informação:

domingo, 24 de julho de 2011

Pensar a militância

Está eleito o novo secretário-geral do Partido Socialista tendo a escolha da maioria dos militantes que votou recaído em António José Seguro, o desfecho era esperado e não causa grande surpresa.
O preocupante nestas eleições foi o número de votantes, cerca de 35 mil, que correspondem grosso modo a 30% dos militantes do PS. Quando em causa estava a eleição do secretário-geral do maior partido da oposição, num acto em que não havia lista única, votarem somente 30 % dos 116 mil militantes do partido, o que deve ser motivo de reflexão.
Numa eleição em que o PS procura um novo caminho depois de 6 anos de governo os militantes alhearam-se deste acto? Os militantes estão insatisfeitos com a forma de actuação do PS e afastaram-se da militância? Poderíamos continuar a colocar uma série de questões e a todas elas poderíamos ir buscar uma resposta para as interrogações ou para o “ses” de tão baixa participação.
A real resposta pode ser muito mais profunda que a desilusão de uns quantos e o afastamento de meia dúzia. E significa que na realidade os militantes efectivos do Partido Socialista não são hoje os 116 mil que constam dos documentos oficiais. Este assunto daria pano para mangas, ou seja uma discussão interminável, pelo que há a necessidade urgente, sob pena de nos deixarmos embriagar por novos desafios, de rever todo o processo de adesão e de manutenção de militantes.
Tal como em todo as secções do País, Estremoz não foi excepção, votaram 25,83% dos militantes inscritos.

domingo, 3 de julho de 2011

Discussão não é traição

Discussão e traição, embora com fonia semelhante, têm significado muito diferente e nem complementares são.
Não alinhar pelo mesmo diapasão e gostar de discutir os assuntos, chegando desta forma a conclusões muito mais ricas, não pode em política ser sinónimo de traição, muito menos do princípio democrático.
A democracia é isso mesmo. Discutir e cada um argumentar o melhor que conseguir para obter, através de um processo participativo, o melhor resultado. Estar todos de acordo, cultivando o culto do líder não é o melhor caminho. Não, definitivamente não é.
Como estaríamos hoje se Mário Soares ou Álvaro Cunhal, para citar só estes dois nomes, tivessem prestado  culto a António Oliveira Salazar ou Marcelo Caetano? Estes dois políticos e muitos outros que no Estado Novo quiseram discutir política com o status quo são traidores do espírito democrático por terem discordado da prática então existente?
Então porque tentam alguns confundir alguns peões, servos de pessoas e não de ideias, que discussão é sinónimo de traição? Efectivamente é incompreensível que em plena democracia se confunda nalguns círculos políticos a discussão democrática com uma traição a princípios políticos ou ideológicos.
Não serão esses que não concordando com o culto do líder, cultivando antes o culto democrático da participação quem mais trabalha para a verdadeira afirmação democrática das ideias e dos princípios? A resposta é simples e é afirmativa. A diferença de opinião nunca pode ser confundida com traição. Cair nesse abismo reflecte a falta de argumentação e o medo de perder poder. Mas como tantas vezes o afirmei, o poder é efémero e uma mera ilusão.