domingo, 29 de novembro de 2009

http://posturadeestado.blogs.sapo.pt

Passamos vidas inteiras desesperadas, embrenhados em problemas e ponderações, em análises detalhadas do quotidiano e reflexões exacerbadas de quem somos, canalizando paixões para esta compulsão doente e humana que é encontrar o sentido da vida. Encontrar um sentido qualquer que seja, uma explicação profunda e inconsciente para tudo o que é, o que se vai fazendo, o que nos acontece, o que pensamos.
São dias, semanas, meses e anos em que não evitamos sentirmo-nos dormentes ao Tempo – de tanto método e ciência perdemos a capacidade inata de desfrutar a Graça de Viver, os dons que nos são paulatinamente dados. Desperdiçamos talentos e vocações, apagamos chamas criadoras para não nos distrair desta psicose louca, de nos prepararmos para uma vida que nunca chegamos bem a viver. Para quê? Para dar desculpas aos pequenos vícios, alimentar com justa causa a nossa preguiça, estimular a insensibilidade ao pequeno – porque nada nos satisfaz, de tão óbvio que se nos torna a intenção por detrás.
Às tantas, de tantas camadas de essências que ansiamos por tornar nossas, escondemos o que é de basilar e sublime. O Homem vai-se perdendo, e como está é uma designação vasta – de uma tamanha nobreza impessoal, que até requer maiúscula – esquecemo-nos de quem "ele" é: cada um no seu contexto, no seu plano natural, com as suas características e personalidade. Porque todo o conjunto parte de vários unidades individuais, neste caso, de vida.
Vamos burocratizando tudo, sistematicamente, num desenfreado de organização, catalogando a mais pequena peça do jogo da nossa vida. As definições, do que sejam, passam a ser tão específicas que nos restringem ao ponto de elas deixarem de ter significado e utilidade. As sensações, por serem ontológicas, tornam-se inválidas. As percepções, por passarem por filtros pessoais, consideram-se distorções da realidade. Os raciocínios, pelo esforço mental que pressupõem, são demasiadamente obscuros e exigentes para serem aceites.
Por calcularmos tantas médias, elaborar tantos padrões e perfis, tentamos chegar ao chamado “ponto de equilíbrio” – evidentemente anormal e suspeito, dado que somos uma combinação incandescente de características diversas –, e recatados nesta tentativa de encaixar, contentamo-nos ao sonhar com originalidade.

Acostumámo-nos ao formigueiro de quem tanto se preocupa em sentir, que nada sente. Percorremos mil caminhos, lemos mil livros em busca de um algo que identificamos prazer – que de tão racionalizado, não é nada –, e fugimos tanto à dor que esquecemos o valor do sofrimento, como elemento construtivo.
Estamos numa sociedade que de Ser não tem nada, que se fechou numa redoma em que nada sente, e que de tal modo se afogou em restrições que não tem espaço nem tempo para respirar a brisa fresca da Razão, das construções mentais com o que de relativamente certo nos advém.

Fomos roubados, tiraram-nos tudo! Até as crenças, até a esperança, num turbilhão de nadas que nos paralisam. A única força profunda e modificadora, que ainda tem a capacidade de nos moldar, é o anelo visceral e uterino que nesta caminhada sempre nos acompanha, necessário à certeza de que estamos condenados à nossa incompletude, inacabados, que nos sempre faltará algo que nunca língua nunca será capaz de pronunciar: a nossa maior ambição ganha corpo numa incógnita, que é comum a todos os que pensam. O que é então o desejo humano de que todos comungamos?
Igualdade? Justiça? Fraternidade e comunhão? Paz? Felicidade? Perfeição? A Verdade? Tantos conceitos puros que hoje se ficam pelo papel, sobrevoados por ideias distintas e contrárias do mesmo Ideal último ainda não experienciado.
Soterrados debaixo de preceitos (e preconceitos) que pesam, debatemo-nos, revoltamo-nos em vão,... sem a conclusão nenhuma chegar. Nem do que é, nem de como o obter. Contudo, é esta a inconveniência que nos atormenta: a certeza expressa, ou mesmo que amordaçada, implícita, de que não nos bastamos e assim o é, pelas condicionantes atávicas da nossa própria humanidade.
Alguns desistem. A maioria, contudo, prefere deixar-se cair num laxismo que se traduz na adicção (qualquer que seja) de modo a viver numa dormência infernal que nos distrai dos nossos próprios desígnios... Ou não é todo o vício uma distracção?
Contudo, há os que persistem, aproximando-se perigosamente do seu objectivo – o da derradeira e intemporal busca humana, pelo cerne amorfo comum e partilhado e que, sem o viver, todos conhecemos. O Mistério final, inicial, que tudo envolve.

Não digo que algum dia vamos encontrar aquilo, o precioso “aquilo” de que todos estamos à procura, e não tem nome. A religião, a filosofia, a psicologia, a sociologia, todas as "ias" do Mundo e seus teóricos se debatem em reflexões e contra-reflexões milenares, para o definir... Mas num dia, um longínquo próximo dia, vamos acordar para a vida; para realizar que temos tudo o que é preciso. E através do cumprimento recto do Dever – do que tem de ser feito, de tudo o que de bom podemos – aí, chegaremos, em pleno, à Felicidade, à Perfeição, ao Espírito. Nesse dissipar transcendente de trevas e Luz, nesse momento em que o conceito onírico do que, para o comum dos mortais é real, se clarifica e desabrocha num estado atento de vigília; só e apenas aí percebemos que o que importa: a procura, a paixão, é o desejo maravilhoso de nos ultrapassar em cada momento, e o esforço que colocamos para o fazer. Porque se nada me falta se em tudo o que faço e com tudo o que me acontece agir verdadeiramente, pondo aí tudo o que tenho e o que sou, torno-me. Ultrapassar a mera existência é partir do sobreviver para a Vida.
Nesta trilogia "sobrenaturalmente humana" de Amor, Fé e Dever, expresso numa fortaleza individual interior inalienável, nos Tornamos. Tal é a aspiração máxima de existir: libertar-se quando se dignifica; dignificar-se na sua libertação.
Liberdade absoluta é, com os elementos que nos são e vão sendo impostos, as coacções biológicas, psicológicas e sociológicas, (num uno indivisível e fantástico de quem somos), lutar pelo melhor. Construirmo-nos a nós e ao nosso meio. Ver sintetizado um Todo que dividido seríamos incapazes de compreender. O objecto, qualquer que seja, é moldado por quem o capta.
O único objectivo e simultaneamente obrigação da nossa existência é, desta maneira e de todas as formas, Ser. E consciencializar a nossa própria transcendência é escolher a Felicidade, todos os dias.
Sem dificuldades e sem o peso da nossa efemeridade, valeria mesmo a pena viver? Não. A finitude, a falibilidade, são os instrumentos de dignificação da pessoa.
Citando Churchill: success is going from failure to failure without losing enthusiasm.

publicado por Francisca Soromenho em http://posturadeestado.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Sexta-Feira 13

A sexta-feira 13, ou seja, uma sexta-feira no dia 13 de qualquer mês, é considerada no imaginário e nas crenças populares como um dia de azar. "Paraskavedekatriaphobia" é o medo/fobia da sexta-feira 13. A origem desta superstição está intimamente ligada à Ordem dos Templários. No dia 13 de Outubro 1307, uma sexta-feira, quando a Ordem dos Templários foi declarada ilegal pelo rei Filipe IV de França, os cavaleiros do Templo foram presos e na sua maioria torturados e, mais tarde, executados, por heresia.
A partir dessa data passou a entrar nas crenças populares o medo/fobia da sexta-feira dia 13, como sendo um dia de azar. Infelizmente foi-o para todos aqueles que Filipe IV mandou executar nessa data.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Regionalização

Em Portugal (Continental) não existem regiões naturais perfeitamente definidas, em que cada um possa apontar facilmente as suas fronteiras, seja por factores de natureza orográfica ou questões culturais. Assim, a regionalização não pode acontecer em virtude desses factores mas sim por vontade política de descentralizar os poderes centrais para a administração regional e local.
Com a implementação da regionalização esta entidade assume competências que deixam de estar na “posse” da Administração Central, estando a tomada de decisão mais próxima da população, não sendo, como se deverá compreender, uma solução para terminar com as assimetrias existentes.
Aos poucos as condições para implementação da regionalização vão sendo criadas, estando os partidos, que outrora a ela se opuseram, mais abertos a tal solução. O novo governo, sem maioria e num clima de abertura e diálogo, parece ter nesta legislatura uma excelente oportunidade para avançar nesse sentido.
No entanto, sendo 2011 anos de eleições presidenciais, não me parece que PS e PSD queiram antes daquele acto avançar com qualquer proposta nesse sentido, o que a acontecer só lá para meados da legislatura.
Percebe-se que o País precisa de uma urgente e até talvez profunda reforma administrativa, no entanto as condições para iniciar o processo têm de estar criadas, não só nos partidos mas acima de tudo nos cidadãos.
A iniciar-se todo este processo só em 2011 poderá “cheirar” a muito mais que uma efectiva revolução no sistema administrativo do País, não nos podemos esquecer que nas próximas eleições autárquicas há muitos presidentes de câmara que não vão poder recandidatar-se, e desta forma seja aberta uma “guerra” por lugares que transformem um processo necessário numa espécie de “segunda volta das autárquicas”, criando o descrédito numa população que já tem dos políticos tão má ideia.
Portanto a reforma administrativa terá de ser muito mais profunda e ir mais além que só a regionalização.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

O bobo da corte


O bobo da corte terá sido o antecedente do palhaço, sendo que hoje ambas as figuras se confundem sendo uma e única pessoa. O bobo da corte, bufão, bufo ou simplesmente bobo é o nome dado ao “lacaio” encarregado de entreter e que procurava, em tempos de monarquia tal como hoje, agradar ao “chefe”.
Da definição plasmada no dicionário retira-se: Bobo, adj. m. (do lat. balbus). Tolo; Pateta. S.m. 1. Indivíduo normalmente de físico defeituoso que divertia príncipes e reis. 2. Indivíduo tolo, parvo. 3. Pessoa que profere disparates.
A figura do bobo teve origem no Império Bizantino e no fim das cruzadas tornou-se figura comum nas cortes da Europa. Vestia, tal como hoje se veste o novo bobo, com roupas espalhafatosas.
O bobo serve para divertir, canta, toca algum instrumento e é, geralmente, o cerimonial das festas. Tal como na época da monarquia o bobo tem língua afiada e diz aquilo, que não tendo coragem, o “chefe” gostaria por vingança pessoal de dizer, isto porque ao bobo tudo é permitido sem que dele façam caso ou o levem a sério.
Com má-língua fala sobre uma realidade que desconhece, revelando as discordâncias e expondo as ambições do “chefe”. É um indivíduo de grotesca figura.
O bobo adora ser bobo. Sempre que o bobo abre a boca, sem entrar mosca, (e o mal repete-se “n” vezes), o povo aplaude, mesmo sem entender o tamanho da calamidade pronunciada.
O bobo adora, actualmente com recursos a novas tecnologias (os bobos de antigamente evoluíram, também mais faltava que não houvesse alguma evolução), abordar falaciosamente o presente, babando de ganância e avidez pela faculdade que se outorga para delapidar o bem comum. E no meio deste arraial de inépcia e ignorância o bobo gostaria que o levassem a sério sendo um escarro desconhecedor da decência e da honra.
O “grande” bobo auto promove-se, não só em frente do espelho, do alto dos palcos que todos os dias inventa para mostrar a sua incapacidade, mas também em frente da Câmara.
Nas peças escritas por Shakespeare, o bobo é figura recorrente, sendo ingénuo e inconsequente, porém de língua afiada, que só serve para insultar e fazer comentários ásperos geralmente desprovidos de verdade.
Na Roma decadente não havia banquete, onde depois das dançarinas, dos acrobatas, dos macacos amestrados vinham os bobos - os gelotopoios, que, em grego, significa os homens que fazem rir a sociedade.
Na Idade Média, o Bobo, com as suas vestes multicores, composta por um saio (esta é a parte efeminada do bobo) de guizos pendentes e gorro divertia, escarnecendo e lacerando reputações e honras, e alimentava injustiças.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

O Palhaço


A estadia em Estremoz do circo Victor Hugo Cardinali, apresentado como o n.º 1 dos circos em Portugal, levou-nos a reflectir sobre uma das figuras sempre presentes nos espectáculos circenses, o palhaço.
O circo é composto por muitos números e artistas como os trapezistas, malabaristas, ilusionista, domador de animais, etc., uns de demonstração de coragem, outros de mestria e inteligência, mas é o palhaço que nos faz rir.
O palhaço apresenta-se, geralmente, numa dicotomia expressa nas figuras dos palhaços “pobre” e “rico”. Do primeiro pouco há a dizer. Diz umas piaditas e pouco mais que isso.
Já o palhaço “rico”, ou supostamente “rico”, apresenta maior complexidade de análise. Ninguém sabe de onde lhe vem a “riqueza” para poder comprar as fatiotas com que se apresenta, que diga-se são sempre efeminadas deixando-nos na dúvida sobre a sua verdadeira orientação sexual. Devido àquilo que o próprio considera ser o seu “estatuto” (que não tem) há situações que nos deveriam levar às lágrimas e não ao riso, principalmente a sua falta de humildade, falta de inteligência e de capacidade de actuação.
Este palhaço tenta também nas suas actuações cantar. Dizemos tenta, embora o palhaço pense que o faz, porque cantar para ele é uma miragem, sendo a sua actuação mais uma gritaria que outra coisa, embora o “público” o iluda e bata palmas. Afinal é o palhaço, serve para divertir os outros.
Esta figura também gosta de monopolizar as atenções durante o “espectáculo”, não só pela sua fatiota efeminada, mas também durante o espaço que lhe é destinado para actuar de se agarrar ao microfone (que quer só para si) para dizer uma dúzia de asneiras, a que ele chama interacção com o público.
Das muitas figuras do circo o palhaço é efectivamente isso mesmo: PALHAÇO. Não tendo “sumo” na sua intervenção assume a piada jocosa e a mentira para divertir e fazer rir o público, mas o riso faz parte da vida, e na vida tem sempre de existir um palhaço para podermos rir. É isso que o palhaço faz, faz-nos rir.